Sejam bem vindos pra dentro de mim. Aqui, estou expondo emoções, revelando minha alma, compartilhando com carinho... Publicando sentimentos. (Gil Façanha)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Nostalgia de mim mesma


Ontem à noite decidi vagar pela cidade e levei comigo, algumas amostras de saudade.
Entrei em um desses bares que normalmente desconheço, pois não fazem parte do meu cotidiano. Busquei com os olhos uma mesa no fundo daquele ambiente. Não iria querer ser incomodada. O lugar era legal! Observei tudo. As pessoas, a forma como os garçons atendiam. Como de costume, primeiro observo, me encaixo, e só depois relaxo. Gosto de perceber onde estou. Não sou nenhuma conhecedora de bebidas, já que beber não é bem um costume meu. Mas eu queria algo que combinasse com a sensação nostálgica que me invadia aquela noite. Pedi um vinho. O garçom me trouxe a carta de vinhos para que eu escolhesse mas eu não conhecia quase nenhum!rsrs.. Então vi um nome que me parecia familiar e apontei dizendo "esse". Nem sabia que gosto aquilo teria. Normalmente é minha irmã que entende bem disso... Eu apenas confio no gosto dela e a acompanho. Dessa vez, apenas arrisquei qualquer coisa. Afinal eu só queria algo que combinasse com meu estado de espírito. Nunca me importei mesmo com certas convenções ou etiquetas... Adoro mandar tudo pro inferno. Não finjo ser o que não sou ou ter o que não tenho (e isso se refere a conhecimentos também). O garçom retornou com uma garrafa escura, bonita eu pensei...rsrs... Entendo tudo de vinho..kkkkk. Sorri e disse... Ah, vai essa mesmo. Confesso que no primeiro gole aquele troço travou! Era um vinho tipo demi-sec...kkkkkk... Eu não tinha a menor idéia de que sabor tinha aquilo. Bom, mas eu iria tomar de qualquer forma. Não podia me dar ao luxo de fingir que poderia devolver, pedir outra, e ainda assim pagar as duas. Nunca pude.... Mas e daí? Eu também não ligo pra isso. Só queria um momento só meu. E eu estava tendo. Havia um envelope que levei comigo e retirei umas fotos de dentro. Espalhei sobre a mesa e fiquei observando. Vi a imagem de uma criança de mais ou menos quatro anos de idade. Tinha um sorriso que me fazia sorrir. Lindo! Inocente como toda criança dessa idade. Eu a vi tão pura, tão distante da atual realidade desse mundo maluco. Fechei os olhos e a vi correr,  cair, chorar, se aconchegar nos braços de sua mãe. Brincar com seus irmãos e amigos, e a vi lembrar em alguns momentos que nunca aprendeu a pronunciar a palavra PAI. Mas eu não a via triste. Ela nem parava pra se questionar isso. Esse questionamento só viria anos depois. O próximo gole daquela bebida me faria abrir os olhos e olhar para a outra imagem. Fiz aquela cara de "que merda amarga é essa?"...rsrsr.. E continuei...
A imagem seguinte era de uma adolescente. Corpo esguio, cabelos longos, pele branca e uma roupa que se repetia sempre, pela falta de opção. Fecho os olhos mais uma vez, e lembro-me bem dela. Cheia de inocência ainda. Acho que nessa foto ela tinha uns 14 anos de idade. As garotas de hoje com essa mesma idade, já possuem comportamentos bem diferentes do que aquela menina tinha. Eu a vi se apaixonar pela primeira vez, e a vi chorar pela primeira vez ao descobrir que se apaixonar não era um momento único... Era apenas um momento. Dentre tantos que possivelmente ainda viriam. Lembro que era difícil pra ela, entender o porquê que ser sincera, transparente, trazia tantas mágoas. Lembro da sensação de estar sendo obrigada a mudar. De descobrir que o mundo não é justo, e lembro muito bem da sensação de descobrir que a vida é apenas a chama de uma vela. Ela descobriu isso ao perder seu primeiro namorado em um acidente de moto. A vida se revelava implacável.
Muitas coisas se passaram desde então. Alguns amores, algumas dores.... Nada incomum. Lembrei de muitos amigos que se foram em outras direções. Pessoas que a chamaram de irmã... e depois a apunhalou olhando-a nos olhos. Sem medo ou vergonha de exibir tamanha covardia.
Outro gole... Outra cara feia...rsrs. Puts... Nunca mais tomo isso.
Mas o gosto amargo do vinho que insistia em travar na garganta, combinava com esse momento. Peguei um pedaço de papel e já havia levado uma caneta. Sempre ando com uma. Comecei a rabiscar qualquer coisa que nem lembro o que foi. Deixei pra trás. 
Havia uma terceira foto... Uma mulher. Me parecia familiar. Ela tinha meu rosto, meus olhos, meu sorriso, e eu tinha a louca sensação de não ser eu. Mas lembro bem dela. Por incrível que pareça, AINDA havia muita inocência naquele olhar. Uma certa pureza mesmo. Como havia sentado de frente a uma janela de vidro, pude ver o meu próprio reflexo embaçado. Fitei novamente aquela foto. Como ela era feliz! Ingênua até. Fechei os olhos mais uma vez e lembrei-me bem. Vi tantos sorrisos por coisas tão simples, tão ao alcance. Vi alegria até nas lutas. Era bom vencer cada problema. 
Abri os olhos, e mais um gole.... E mais um PUTA QUE PARIU, QUE MERDA É ESSA?! kkkkkk... Eu conseguia rir disso. Eu estava me divertindo com a minha péssima escolha e com meu pouco dinheiro. Pouco demais pra pedir outra coisa. Olhei meu reflexo novamente, e sorri. Coloquei a mão no rosto e sorri com vontade. O ambiente era tipo a meia luz, então, ninguém iria notar que provavelmente eu era só uma maluca rindo sozinha em uma mesa no canto de um bar onde eu nunca havia estado. 
Eu reconhecia todas aquelas fotos, todos os momentos, todas as sensações. Eu tenho uma ótima memória para fatos. Eu sempre lembro de tudo que vivi e tudo o que disse, e tudo o que ouvi. Não há muitos enganos nisso. Eu só não conseguia entender ou reconhecer aquele reflexo no vidro da janela. A minha quarta imagem, o meu reflexo embaçado, foi o que me levou até aquele lugar. Não sei bem que transição é essa, mas confesso que não gosto dela. Não gosto de me sentir confusa, insegura e o pior de tudo... Não gosto de não me reconhecer tão bem. 
Virei a última taça como se desejasse me impor algum castigo..rsrs. O garçom, muito educado por sinal, talvez por eu ser mulher e estar sozinha, serviu o vinho novamente. Não posso negar que dei uma boa gargalhada que o coitado com certeza ou não entendeu, ou achou que eu já estava bêbeda com duas taças de vinho..kkkkkk. Eu só não suportaria outra... Por favor... Não me torture tanto (foi o que pensei em dizer..rsrs). Suspirei profundo, peguei a taça, tomei mais um gole, fiz mais uma cara de quem estava odiando e pensei: Ah, eu não mereço tanto castigo assim. 
Pedi a conta e sai daquele lugar com a sensação de que o vinho sugou todo o líquido do meu corpo. Eu só queria água. Caminhei um pouco na areia da praia e em um determinado momento, eu olhei o relógio, e vi que já era hora de voltar pra minha vida real. Não adianta tentar entender nada. Eu só precisava desse momento. O resto... Só o tempo irá explicar. Mas não posso negar que sinto uma enorme saudade de mim mesma. E que ainda não reconheço muito bem essa estranha que se exibe sorridente no reflexo do meu espelho.

Gil Façanha



"Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim". (Clarice Lispector)

(Apenas quando terminei de escrever esse texto, na busca por uma imagem e um título, encontrei esse texto de Clarice Lispector. Como não me encantar com essa mulher, se eu adoraria ter sido a pessoa que escreve o que ela parece revelar da minha própria alma?)

3 comentários:

Monica Pamplona disse...

Ás vezes,é necessário um momento só pra si,mesmo tomando uma merda de um vinho que trava a garganta.Entregar-se a esse momento é surpreender-se pela transformação que a vida nos obriga a passar.Mas fazer o que?Tem-se que continuar vivendo,e da melhor maneira possivel.Pois um dia,se terá nostalgia do momento de agora.
Bjsss minha querida
MÔNICA

Mirian Marclay disse...

Amiga que texto lindo! Você faz mini condos/contos perfeitos! Deus te inspire sempre Princesa!

Núbia Simões disse...

Olá Gil, gostei muito do seu blog, do seu texto!! Me identifiquei, pq algumas vzs tbm tenho muita saudade de mim mesma. Eu até me "reconheço", apesar das cruéis mudanças q o tempo se encarrega de fazer, mas, a saudade de mim mesma é ENORME!!Parabéns. Serei uma "seguidora". E qdo estiver passeando na rede, venha visitar meu tímido blog. Bj

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