Sejam bem vindos pra dentro de mim. Aqui, estou expondo emoções, revelando minha alma, compartilhando com carinho... Publicando sentimentos. (Gil Façanha)

sábado, 30 de junho de 2012

(RE) Fazendo escolhas (conto)




Ela era tempestade e fogo. Hora varria o mundo com suas vontades, hora queimava de desejo e agia com a impulsividade de quem não sabe esperar. Foi, em outro tempo, o retrato da pureza e tinha na voz a doçura dos anjos. Mas sua sede de amor à fez cruzar fronteiras, e feito anjo caído, fez-se humana. Sentiu todos os prazeres, anseios e temores reservados aos mortais. Cedeu às tentações, viveu em plena luz do dia seus pesadelos noturnos.

Encontrou nele a doçura da conquista, o sorriso quase sincero que a deixou iludida. Perdeu-se em ilusões adotadas, como se fossem filhas do seu próprio sangue paridas em seu coração. Ele que nunca conheceu o céu e até duvidava de sua existência, embora passeasse pelo inferno em visitas constantes, fez-se dono das vontades dela.

Sem perceber a alma sendo consumida dia a dia, as orações ficaram escassas e seus pés cobriam-se de excremento a cada passo. Sentiu sua angústia quase palpável ao estar diante da fronteira do tempo, que separava tudo o que foi daquilo que não mais seria. Deu um passo atrás e reviveu a própria história. Repensou desejos e prazeres vividos, e lamentou pela mente corrompida, as asas para sempre perdidas. Se antes vagava em um caminho já sem brilho, o mesmo que a fez mudar de rumo, agora estava mergulhada em sua escuridão peculiar. Havia esquecido o gosto do sono bendito, e na busca pelo que jamais possuíra, foi tomada pela quimera de ter em mãos o que não lhe pertencia, e passou a ser aquilo que ela mesma desacreditava que poderia se tornar um dia.

Depois de tanto tempo, estava ela rezando em voz baixa a oração que sua mãe lhe ensinou, e no meio dela, sentiu remorso ao ver que já era um texto esquecido. Entre pedaços de uma oração decorada, começou a falar com Deus. Não lembrava em que esquina havia perdido o rumo. Não conseguia lembrar em que momento deixou de ser ela para ser ele. Ali, foi invadida por uma luz sem fonte e sem destino. Parecia simplesmente estar dentro dela, e lhe aquecia o corpo. Tomada pela lucidez, viu serem destruídos todos os planos que outrora fez, e notou em meio a um turbilhão de emoções, que estava diante da última chance... Antes de ser vencida pela insensatez.

Escorregou nas paredes da consciência, mergulhou em pensamentos como nunca feito antes, e sentiu como já havia se tornado vulnerável àquela dominadora emoção que cruzou seu caminho. Em algumas das andanças por onde ela o seguia, ouvia vozes desconhecidas falarem de um tal amor sem prisão, sem domínio, sem posse, sem medo, mas era como ouvir a língua dos anjos... Ela já não compreendia. Há tempos havia abandonado o paraíso, e com o olhar distorcido, feito semente plantou-se em solo infértil e lá floresceu desengano, regado pela jovem certeza de que tudo sabia.

Diante do próprio reflexo, desconheceu aquela imagem, e ao fechar os olhos se buscou por dentro. Ao ouvir e reconhecer aqueles gritos sem eco, sentiu o peito acelerar ao perceber que se encontrava em sua autoprisão. Foi como ser invadia pela luz em plena escuridão, e seus pulmões encheram-se de ar como quem se afogou nas próprias escolhas e finalmente emergiu em busca de oxigênio, de uma nova vida... O momento da libertação. Ali, questionou a si mesma se poderia simplesmente voltar atrás, e ao encarar a constatação de que passos dados adiante não retrocedem, via na trilha de seus atos, a única estrada a seguir. Mas naquele momento, percebeu que embora estivesse encarando a impossibilidade em recuar pela mesma senda ao encontro do antigo ponto de partida, desfazer o que foi feito, ou recuperar as palavras jogadas ao vento, um novo final poderia ser escrito a partir daquele instante.

Ela nunca mais será a mesma. Mas, ainda que jamais possa voar novamente ou voltar a ser quem fora um dia, ainda assim lhe agrada a sensação de pisar em terra limpa, de sentir o perfume das flores que acompanham as mais sábias decisões. E assim entre dois mundos, tornou-se anjo noturno. Embora lhe falte às asas, todas as noites ela aguarda a próxima lua minguante para pegar carona até o céu... Até que o sol venha tomar seu lugar e na beleza do amanhecer ela retorne a terra.


Gil Façanha

terça-feira, 26 de junho de 2012

Saudade bandida




Desfaz de mim, saudade que mata!
Faz-me olhar o horizonte e nada ver além de lembranças.
Obriga-me a desejar o passado, aquele antigo sentir de criança.
Zomba dos meus temores, açoita-me com a nostalgia,
Sujeita-me a encarar o escuro horizonte, de onde no passado o sol me sorria.
Destrói minhas cresças, aquela esperança de um mundo melhor,
Descortina as janelas do meu sorriso e põe em meus lábios a tristeza sem dó.
Serpenteia meus caminhos, envenena minha fé...
Caçoa das minhas lutas, da minha alma de mulher.
Aguça todos os meus sentidos, faz-me entender o que é a dor.
Arranque-me as raízes plantadas no peito, destrua meu coração feito em flor.
Impiedosa saudade bandida, teu afã de invadir-me destrói minha muralha.
Tu eis tão carnal, lasciva, perdida...
E eu, guerreira lutando no fio de uma navalha. 


Gil Façanha


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Ímpeto




Faz de mim a rima do teu poema.
A melodia da tua melhor canção.
Das entrelinhas do teu verso, o tema.
Musa da tua mais bela inspiração.

Toma-me como tua e me ama,
Ousa ir mais longe, ao infinito.
Do papel ao cetim da nossa cama,
Escreveremos o dueto mais bonito.

Ceda aos desejos em teu peito,
Adentra o paraíso que te oferto,
Mergulha sem pensar em preconceitos,
Nesse oásis que serei em teu deserto.

Faz-me tua sem medos e rodeios,
Diga adeus aos temores de agora.
Aconchega-me em teus braços sem receios,
Ou deixa-me de vez, e vai embora.


Gil Façanha

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A arde da droga na moldura da vida


UM CONTO BASEADO EM FATOS REAIS


Ele mergulhou em seus erros. Transformou-se em vítima de suas próprias escolhas, e ao encarar seu reflexo naquela poça de água formada pela chuva que caia sobre seus ombros, naquele cruzamento de uma rua qualquer, em uma hora que pouco importava, se deu conta de que houvera se transformado em uma estatística. Um número anunciado no jornal local. Antes da descida sem freio, a vida era uma reta. Estrada sem montanhas onde a brisa lhe tocava o rosto, o horizonte era ensolarado quase ofuscando seu olhar de esperança e qualquer sonho era quase palpável. Tudo era possível.  Mas em tantos cruzamentos que a vida trás, em tantas bifurcações onde tropeçam nossos pés, ou encortinam nossas certezas, as futuras escolhas se tornaram presente. O horizonte feito  tela colorida perdia suas cores a cada passo equivocado, e o sol que enturvara seu olhar deu espaço à noite em pleno meio dia, que ironicamente o deixara ver a escuridão como jamais fora possível antes.  
Aquele caminho outrora reto, ao trocar de pés tornou-se ladeira. Uma descida suave, quase imperceptível, lhe causara a ilusória sensação de que o retorno seria fácil. Era como viver uma aventura solitária, como dar fim ao tédio, animar o dia, e quando tudo lhe cansasse, quando se instalasse novamente a rotina, ele simplesmente voltaria aos antigos planos. Não percebera que ao insistir em sua caminhada, paredes também se erguiam à sua direita e à sua esquerda. Sentia-se sufocar vez ou outra, mas os prazeres do agora escondera o inferno do depois e para ele fora impossível perceber aquele fio estendido no meio da estrada, onde por alheação tropeçaria, e a partir de então, faria parte da própria armadilha, tão pertencentes um ao outro que quem os fitasse em um lugar qualquer, não poderia distingui-los.
Seu sorriso tornou-se a mentira encoberta, e seu olhar era a imagem da angústia. De repente parecera que ali, jamais houvera existido uma criança, ou que tivera algum dia, sabido o significado da palavra esperança. A cada escolha, uma chance se perdia. Pai... Desiludido. Mãe... Angustiadamente perdida. Irmãos, avós, tios, filhos, poucos verdadeiros amigos e até desconhecidos... Cada um em seu tempo fora a imagem de uma porta aberta, cerradas uma a uma, sempre que cada nova atitude lhes mostravam que já não sabiam mais com quem estavam lidando.  Era como se aquilo que um dia parecera uma máscara, houvera se tornado sua face verdadeira.
Ainda lembro quando ele tentara mudar. Lembro-me de vê-lo tentando voltar. Mas as paredes que se ergueram a cada lado do caminho, também se fecharam atrás dele.  E ainda posso ver seu olhar de surpresa, suas lágrimas banhando seu rosto, como quem olhava através daquela muralha ao seu redor e pudesse ver como a um filme, aquele tempo onde a estrada ainda era uma reta, quando o horizonte ainda era colorido. Naquele instante, o vi secando os olhos com o dorso de suas mãos sujas, respirando fundo, e partindo mais uma vez. Embora eu desejasse que ele percebesse que sempre é hora de uma nova escolha, que os passos dados à frente podem, a qualquer momento, mudar sua direção, estive na plateia de sua desistência surta e cega.
Agora ao invés de esperança, há medo. Há lágrimas. Há um cansaço no lugar da luta, há uma agonia no lugar da paz. Há uma tristeza profunda no lugar da alegria, há a falta de notícias, e a insana e irreal sensação de parecer possível se viver como se nada houvera acontecido. Vão desejo alimentado pela sensação de derrota. Aquele que era um filho amado, um menino com nome, casa e família, tornou-se um número. Ele agora é conhecido por ai através de um cognome. Um vulto a mais nas calçadas noturnas, um ser a mais a fugir da luz do dia como quem se acostumou à escuridão. Um corpo... Como se não houvesse alma. Na última vez em que o vi, já não havia mais beleza aparente ou uma cor sequer em sua autocriação. Lembrou-me nitidamente uma pintura abstrata em preto e branco, indecifrável para quem de nada entende do estilo. Mas foi surpreendentemente estranho perceber que ainda era visível estar intacta a moldura da arte da vida. Fora como testemunhar um recado divino. Como se Deus em sua sabedoria infinita, deixasse claro que sempre será tempo de se criar uma nova obra. Pois cada um é artista da sua própria história.


Gil Façanha

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